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festival do deserto

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    festival do deserto


    É difícil imaginar um festival de música sem copos de cerveja espalhados pelo chão, filas intermináveis para as casas de banho ou multidões que se empurram a meio dos concertos. Mas no Festival au Désert, no Norte do Mali, não há nada disso. A electricidade é escassa, não há sanitas e não conseguirá chegar lá sem ser de camelo. Para ver os concertos, quase todos de artistas africanos, pode sentar-se nas dunas e à noite não tem alternativa a não ser dormir numa tenda com mais umas quantas pessoas.

    Tem sido assim desde Janeiro de 2001, quando o festival foi criado, em Tin Essako, no Nordeste do Mali, como um encontro musical de tuaregues. No ano seguinte mudava-se para Tessalit, ainda na mesma região, até que em 2003 a organização decidia fixá-lo em Essakane, perto de Timbuktu. O Festival au Désert, considerado o mais remoto do mundo, começava a ganhar popularidade junto de turistas e a chamar a atenção de músicos internacionais que também lá queriam tocar.

    O ex-Led Zeppelin Robert Plant foi o primeiro a aparecer, em 2003, e fez questão de tocar com artistas locais. No ano seguinte, Damon Albarn repetia a proeza. Aliás, uma anterior estada no Mali já lhe tinha valido um álbum, “Mali Music”, lançado em 2002, com colaborações de artistas locais. Manu Chao foi outro dos que se juntaram à festa dos blues do deserto, já animada por músicos malianos como o falecido Ali Farka Touré, Oumou Sangaré e bandas como os tuaregues Tinariwen, que se tornaram famosos depois de uma actuação no festival.

    Em Janeiro deste ano foi a vez de Bono, dos U2, fazer uma visita, e parece que escolheu a altura certa. Depois do rapto de três turistas e da morte de outro em Timbuktu, corriam rumores de que o festival não se iria realizar. Muitas agências de viagem, que normalmente organizavam excursões para o deserto, começavam a desistir da ideia, mas mesmo assim o festival aconteceu, no início deste ano. Em 2013 a conversa é outra.

    Quando em anos anteriores os problemas do festival eram essencialmente técnicos (estamos a falar de atrasos nas actuações que podiam durar dias) ou naturais (em 2005 houve uma praga de gafanhotos que quase impediu que acontecesse), o golpe de Estado no Mali em Março deste ano levou a que a maior parte das cidades do Norte do país ficasse nas mãos de rebeldes islamitas. Timbuktu e a zona do festival não foram excepção e as estruturas não escaparam à onda de violência. Tudo começou com a ocupação do recinto do festival (a porta de entrada, o sistema de abastecimento de água, etc.) e os armazéns onde a organização guardava o material (geradores, equipamento eléctrico, etc.), escreveu Manny Ansar, director executivo do festival, num comunicado à imprensa. “Mas o pior foi a destruição dos monumentos e mausoléus de Timbuktu, símbolos da nossa cultura e das nossas crenças.”Com tudo isto, e “apesar de todos os esforços para resistir ao extremismo na região, é impossível realizar neste momento um festiva ali”, continua Manny Ansar.

    Isso não quer dizer que o Festival au Désert tenha chegado ao fim. Pelo contrário. Quando surgiu, além de ser um encontro musical entre tuaregues, o objectivo sempre foi promover a paz no deserto do Sara. “Os valores de paz e tolerância do festival são agora uma emergência”, diz o seu director. “É uma mensagem que queremos transmitir entre nós e para o resto do mundo que partilha os nossos valores.”

    A solução, e como estamos a falar de povos nómadas, foi fazerem uma “caravana de artistas unidos pela paz e a união nacional”. Assim, vários artistas vão partir do Mali, de Marrocos, da Mauritânia, da Argélia e do Níger para se encontrarem em Oursi, no Burkina Faso, entre 20 e 22 de Fevereiro – o sítio foi escolhido pelas parecenças com Timbuktu. Pelo caminho também haverá concertos, o que faz com que, pelas piores razões, a edição deste ano tenha ainda mais música.































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